A Inteligência Artificial é usada na produção de notícias há muitos anos. Entretanto, recentemente, ela tem sido evitada, escondida ou mesmo adotada em massa por diversos portais de notícia brasileiros.
Aqui, discutiremos os diversos aspectos relacionados, como ética, precisão e revisão de cada um dos conteúdos publicados.
Embora nenhum dos casos analisados, necessariamente, possa ser enquadrado como crime ou ato ilícito, eles são importantes para que a sociedade e o jornalismo entendam o que é uma notícia e qual a melhor maneira de remunerá-la.
Conteúdo automatizado existe antes do ChatGPT
Conteúdos artificiais são muito mais antigos que o ChatGPT, divulgado em dezembro de 2022. Nas eleições de 2020, por exemplo, ao acessar o texto criado com a proclamação do resultado no G1, vemos a indicação abaixo:

Entretanto, podemos ir ainda mais fundo. No chamado Black hat, estruturas de criação de conteúdo para enganar os motores de busca, a ideia de spinar é bem antiga. Ferramentas contavam com um dicionário de sinônimos e trocavam boa parte das palavras. Dessa forma, palavra por palavra, o texto era diferente, embora seu conteúdo fosse o mesmo.
Outra tática utilizada era a tradução, via Google Translator ou similar, para traduzir conteúdos e notícias publicados em língua distinta.
De qualquer forma, o Google e os usuários sempre precisaram lidar em algum grau, mais ou menos ético, com conteúdo criado de forma artificial.
Entretanto, com a popularização das ferramentas generativas, o processo tomou outras proporções.
O presente do conteúdo criado por IA generativa
Mesmo o GPT é muito mais antigo que o ChatGPT. Na época, os textos tinham qualidade duvidosa e dependiam de alta interação humana para ser publicado. Com o passar dos modelos, a realidade mudou. Os textos passaram a ter aspectos profissionais, podendo ser usados, sem ressalvas, em relação aos aspectos de gramática e escrita.
Entretanto, se os textos escritos por IA podem ampliar a quantidade de tópicos e editorias cobertas de um site ou mesmo diminuir o quadro de colaboradores, por outro, traz diversas controvérsias, que serão relatadas posteriormente.
Conteúdo escondido criado por IA
Um primeiro grupo de análise são os portais que criam conteúdo por IA com único intuito de ampliar a monetização. Como relatamos aqui, a fonte de informação não é de interesse do Publisher. Ele não tem interesse em divulgar ou promover de alguma forma o conteúdo.
Com Discover, por exemplo, a estratégia é apenas veicular o conteúdo para que mais pessoas vejam anúncios. Como não há compromisso com a notícia, as empresas fazem uma separação do conteúdo oficial do site. Você só conseguirá acessar essas informações com o link específico ou acessando direto do aplicativo do Google.
Conteúdo ocasional criado por IA
Como mostramos no tópico acima, o G1 já automatiza alguns de seus conteúdos com o uso de Inteligência Artificial. Entretanto, a prática tem como objetivo cobrir assuntos com maior velocidade quando seria complexo fazer apenas com uso humano.
Você viu o exemplo das eleições municipais. Divulgar resultados de mais de 5 mil municípios seria muito custoso para a organização e demandaria muitas e muitas horas. Nesse cenário, o G1 entendeu que usar ferramentas generativas pode ser útil.
O G1 também utiliza conteúdo criado por IA em resultados de loteria:

O veículo informou, em 2024, que
O g1 passa a publicar, de maneira automática, os resultados dos concursos das loterias +Milionária, Quina, Lotofácil, Lotomania, Timemania, Dia de Sorte, Dupla Sena e Super Sete realizados pela Caixa Econômica Federal, que acontecem de segunda a sábado, às 20h.
Por outro lado, o portal não lança mão desse artifício no dia a dia.
Conteúdo criado por IA de forma consistente
Se, por um lado, há portais que tentam esconder ou relegar sua criação de conteúdo de IA ao segundo plano, outros não escondem que parte fundamental do processo é artificial. Aqui, concentramos boa parte de nossos esforços de análise.
CNN
Diferentemente do G1, a CNN optou por gerar artificialmente conteúdo de análise, tendo como base conteúdo em vídeo.

No caso específico, apenas quem ler integralmente a matéria perceberá que ela foi criada por inteligência artificial:

Na página de transparência de uso de IA, a CNN informa que não usa dados externos, apenas o que foi produzido pela própria empresa. Além disso, cita revisão manual e total responsabilidade sobre o que é publicado.
Também em 2024, a CNN informou que
Todas as informações que aparecem nestes textos foram apuradas e checadas por âncoras, analistas, repórteres e produtores de conteúdo da CNN. Após a transcrição, os textos também passam, impreterivelmente, por revisão dos profissionais da empresa.
Jovem Pan
A Jovem Pan é mais agressiva com o uso de IA. É mais difícil encontrar conteúdos com autoria e a política de IA não é clara.
Em alguns casos, a fonte da informação aparece com asterisco, sem link, ao final do artigo:

E aqui:

Em outros, a empresa afirma que a reportagem foi publicada com auxílio de IA:

E aqui:

Nesse sentido, temos poucas informações sobre quais são os critérios objetivos para a publicação com IA e o funcionamento de toda operação.
A prática não é nova
Coomo o Intercept mostrou em 2024, a Jovem Pan está sendo acusada de plágio velado por usar um programa de inteligência artificial, o “Samy News”, para copiar e republicar conteúdos de outros veículos sem dar os devidos créditos. A denúncia, feita por ex-funcionários, aponta que a plataforma é atribuída ao economista e comentarista Samy Dana.
Desde 2023, a Jovem Pan tem demitido jornalistas em massa, e o uso da IA se intensificou para compensar a redução da equipe, com cerca de 66% do materialdo site sendo gerado por inteligência artificial, copiando de portais como G1, Folha, CNN, Estadão, Valor Econômico e UOL. As matérias plagiadas são frequentemente assinadas como “da Redação”, e a função dos jornalistas passou a ser a de checar as cópias para disfarçar o plágio, em vez de produzir conteúdo original.
Ex-funcionários revelaram que o “Samy News” mapeia matérias de outros veículos, altera o texto e disponibiliza para publicação em diversas editorias. A ferramenta, que inicialmente funcionava como uma plataforma paralela, foi anexada diretamente ao publicador da Jovem Pan.
Apesar de Samy Dana não ter respondido diretamente sobre sua participação, o advogado da emissora afirmou que a Jovem Pan “vem desenvolvendo e incorporando sistemas de inteligência artificial para auxiliar a atividade dos jornalistas”, negando que isso seja plágio. O domínio da plataforma, newsjp.mdsai.com.br, está registrado em nome de Luiz Fernando Simões Favaro, cientista de dados da Semantix, que confirmou ter desenvolvido a plataforma a pedido de Samy Dana, mas negou que seja para plágio, enquanto a Semantix negou qualquer relação com o “Samy News”.
De acordo com o Intercept, a utilização do “Samy News” se tornou obrigatória na redação da Jovem Pan, com metas diárias de 15 a 20 publicações. Um levantamento do Intercept mostrou que, a partir de 3 de janeiro, as publicações assinadas como “da Redação” — que indicam plágio, segundo os ex-funcionários — representaram, em média, 66,7% das publicações diárias, um aumento significativo em relação ao período anterior.
A matéria disse que em 52 dias, foram registrados 1239 plágios. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo repudiaram a prática, alertando para a perda de empregos, a violação da propriedade intelectual e a falta de ética ao não informar o público sobre o uso de IA. Samy Dana e seu sócio Adonay de Nuccio já haviam ironizado em vídeo a substituição de jornalistas por IA, defendendo que “70% do jornalismo seria substituído”.
Samy Dana dá detalhes
Até 2024, a sociedade dependia da apuração de veículos como Intercept e Não é Agência para verificar plágios e usos de IA. Entretanto, recentemente, o próprio Samy Dana deu detalhes de seu projeto.
Em entrevista, ele disse que:
Com ferramentas como geradores de gráficos, redatores de notícias por IA e publicadores de mídias sociais, a Sampi permite que empresas e veículos de comunicação criem conteúdos de alta qualidade de forma rápida e eficiente. Essa abordagem não apenas reduz o tempo de produção, mas também amplia o alcance e a personalização das publicações, atendendo às demandas de uma audiência cada vez mais digital e exigente.
(…)
A parceria entre a Jovem Pan e a Sampi representa um avanço significativo na integração de inteligência artificial na produção de conteúdo jornalístico. A Sampi acelera e otimiza a criação de notícias, oferecendo ferramentas como geradores de gráficos, redatores de notícias por IA e publicadores de mídias sociais. Essa colaboração permite à Jovem Pan produzir conteúdos de forma mais eficiente e personalizada, atendendo às demandas de uma audiência cada vez mais digital e exigente. Conseguimos na Sampi produzir boletins informativos e outros materiais jornalísticos de maneira mais ágil, mantendo a qualidade e a relevância das informações.
Em participação no podcast Inteligência Ltda, ele disse que é cofundador da SAMPI, uma empresa que começou como um projeto pessoal na Jovem Pan, onde ele escreveu quase 3 milhões de linhas de código. A Jovem Pan se tornou sócia, e a SAMPI produz conteúdo utilizando inteligência artificial, substituindo 150 pessoas.
Mistura de portais com autoridade no mercado
A IA produz texto, vídeo, posts e teleprompters. Ele exemplifica com um boletim de notícias da Jovem Pan que é apresentado por uma IA com sua imagem e voz, mas não é ele. A ferramenta generativa faz pesquisa notícias de diversas fontes (New York Times, Le Monde, Haritz, podcasts, Instagram), gera resumos, e pode adaptar a linguagem e o estilo para um entrevistador, criando roteiros e até mesmo avatares em vídeo e voz.
Apesar de a Jovem Pan indicar que o conteúdo é gerado por IA, muitas pessoas ainda acreditam que é o próprio Samy. Ele ressalta a importância da moderação humana e de usar apenas fontes reconhecidas para evitar “maluquices” da internet. De acordo com ele, a IA se concentra em notícias baseadas em fatos, não em análises críticas ou exclusivas.
Veja uma análise do avatar do Samy Dana, fazendo uma análise:
Nesse caso, há um aviso ao final do vídeo sobre o conteúdo e, inclusive, imagem serem criados por IA.
Dana não acredita que IA substitua o humano
Samy Dana não acredita que a IA “substitui” pessoas, mas sim que “o ser humano com IA substituirá o ser humano sem IA”. Ele argumenta que, no caso da Jovem Pan, onde 150 pessoas foram substituídas, a IA pode ter salvado a empresa da falência, preservando outros 300 empregos.
Ele enfatiza que o talento humano deve se concentrar no que a IA não pode fazer, como a criatividade para um podcast, enquanto a IA cuida da edição e outras tarefas repetitivas. Samy mencionou o caso em que o Intercept fez uma matéria acusando-o de plágio, mas a Globo lançou um protocolo para IA semelhante ao que eles já usavam, com moderação humana e uso de fontes reconhecidas, dizendo que seu sistema é verificado por humanos.
Mas diferentemente do que foi dito por Samy Dana, as diretrizes da Globo são bem rígidas. No G1, por um lado, nos casos especificados, os conteúdos podem até ser publicados, com as devidas informações. No O Globo, por outro lado, nenhum conteúdo é criado por IA.
Contratos com mais empresas
Sem explicar quais os usos de sua ferramenta, Dana diz ter acordos com Revista Oeste, SBT, CNBC e Exame.
O futuro do jornalismo
É comum escutar discursos que você não perderá emprego para IA, mas para alguém que sabe utilizar IA. Mas o próprio Dana assumiu a diminuição de cargos na Jovem Pan.
Casos como Business Insider mostram que a corda continuará rompendo para o lado mais fraco. Nas dificuldades, os jornalistas são desligados ou mesmo o projeto encerrado, como aconteceu com Inteligência Financeira e Jovem Nerd.
Mais do que isso, precisamos definir o papel dos humanos em redações semi ou completamente autônomas. Já não podemos dizer que o jornalismo não é feito no IA no Brasil. Ainda assim, a conexão entre o fato e o texto sempre se dará por um humano que, em algum momento, pesquisou, interpretou e escreveu uma notícia.
No caso de Dana, ele mostrou que seus conteúdos são criados baseados em fontes confiáveis, principalmente internacionais. Entretanto, essas empresas autorizaram o uso pela plataforma de Dana? Há algum nível de transparência em relação a tudo isso?
Vale relembrar que outros veículos, como Estadão, O Globo e Folha de São Paulo negam e repudiam qualquer conteúdo gerado completamente por IA.
Procurada, a Jovem Pan não respondeu aos nossos questionamentos.
A não remuneração das fontes utilizadas tem se tornado um dos maiores problemas para o jornalismo atual, uma vez que permite aos concorrentes produzir conteúdo semelhante ao seu sem nem mesmo precisar pagar um redator para fazer a cópia ou escrita.
Por fim, outra discussão, do ponto de vista da audiência, é entender se realmente vale a pena ler um conteúdo que foi criado por IA. Por que aquele site? Há elementos para, depois, discutir sobre a participação do Google em minar visitas e usar o conteúdo para ele mesmo gerar a notícia?
Embora nenhum dos casos analisados, necessariamente, possa ser enquadrado como crime, são importantes para que a sociedade e o jornalismo entendam o que é uma notícia e qual a melhor maneira de remunerá-la.
Publisher do "Não é Agência!" e Especialista de SEO, Willian Porto tem mais de 21 anos de experiência em projetos de aquisição orgânica. Especializado em Portais de Notícias, também participou de projetos em e-commerces, como Americanas, Shoptime, Bosch e Trocafone.
- Willian Portohttps://naoeagencia.com.br/author/naoeagencia/
- Willian Portohttps://naoeagencia.com.br/author/naoeagencia/
- Willian Portohttps://naoeagencia.com.br/author/naoeagencia/
- Willian Portohttps://naoeagencia.com.br/author/naoeagencia/

