- Nos EUA, Google procura grandes portais para licenciar conteúdo para IA
- Embora isso seja uma vitória para tais portais, há dúvidas sobre como o setor como um todo se beneficiará
- O ideal é ter acordos coletivos, em vez de individuais.
De acordo com Bloomberg, o Google está em processo de recrutamento de organizações de notícias para um novo projeto de licenciamento relacionado à Inteligência Artificial (IA). Essa ação indica um esforço da empresa para reforçar as relações com a indústria jornalística, que têm sido frequentemente tensas.
Inicialmente, o Google planeja lançar um projeto piloto envolvendo cerca de 20 veículos de notícias americanos. Um porta-voz da empresa afirmou que estão “explorando e experimentando novos tipos de parcerias e experiências de produtos”, mas sem divulgar detalhes específicos no momento.
Uma vitória para o Jornalismo?
A possibilidade de o Google, da Alphabet, pagar por conteúdo para projetos de IA pode representar uma grande vitória para as empresas de mídia. Essas empresas, que há anos perdem leitores e anunciantes para veículos digitais, encaram a IA como uma nova ameaça potencialmente existencial.
Start-ups como a Perplexity AI Inc e a OpenAI já começaram a remunerar editores pelo uso de seu conteúdo em chatbots, proporcionando uma receita muito necessária para as empresas de mídia. O projeto de licenciamento do Google seria adaptado a produtos específicos, embora os detalhes dos termos ainda não tenham sido compartilhados.
Entretanto, a resposta ainda é incerta, uma vez que os portais médios e pequenos podem se sentir ainda mais sem representatividade. Mesmo Publishers como Estadão, Folha e O Globo sentem que o mercado não vê o devido valor no trabalho jornalístico. Em um possível acordo (que ainda não chegou ao Brasil), a representatividade dos menores pode ficar ainda mais prejudicada.
Proteção de conteúdos e conflitos
O Google já utiliza artigos e publicações online em suas visões gerais de IA, que são respostas curtas geradas que frequentemente superam muitos resultados de pesquisa. Apesar de os editores acreditarem que esses resumos reduziram o tráfego para seus sites, eles têm hesitado em proteger seu conteúdo das ferramentas de IA do Google por medo de prejudicar sua visibilidade nos resultados de busca da empresa.
Há um desacordo persistente entre o Vale do Silício e a indústria da mídia sobre o uso de conteúdo jornalístico por empresas de tecnologia para criar programas de IA. No final de 2023, o New York Times processou a OpenAI, alegando que a startup e a Microsoft Corp usaram artigos protegidos por direitos autorais para treinar o chatbot ChatGPT e outros recursos de IA. Historicamente, o Google tem mantido uma relação delicada com os meios de comunicação.
Muitas editoras dependem do mecanismo de busca do Google para obter tráfego quando as notícias surgem. No entanto, líderes da indústria criticaram o uso de conteúdo pela gigante da tecnologia em produtos como o Google Notícias.
No passado, o Google se beneficiou de programas como os Destaques Jornalísticos para compensar os editores, sem comprometer seu argumento central de que a doutrina dos direitos autorais de “uso justo” permite a utilização de seu material.
No início deste ano, o Google anunciou uma parceria com a AP para fornecer notícias para seu chatbot Gemini, o primeiro acordo desse tipo. A gigante da tecnologia também explorou um produto de notícias de IA em áudio sob sua marca Gemini, que aproveita o conteúdo licenciado de acordo com uma fonte.
Os acordos individuais ajudam os pequenos e médios portais?
A notícia de que o Google busca licenciar conteúdo com grandes veículos nacionais para seus projetos de IA levanta uma questão crucial: pequenos e médios portais de notícias também conseguirão acordos vantajosos? A resposta a essa pergunta é complexa e envolve diversos fatores, mas acordos individuais sempre favorecem quem têm maior poder de barganha na mesa, enquanto que os coletivos ajudam a desenvolver um setor mais forte e plural.
Pequenos e médios portais podem ficar otimistas?
Em teoria, o interesse do Google em licenciar conteúdo para IA abre portas para uma diversificação das fontes de informação. Para projetos de IA que buscam uma ampla gama de perspectivas e uma cobertura mais localizada, o conteúdo de pequenos e médios portais pode ser incrivelmente valioso.
- Conteúdo local e nichado: muitos pequenos e médios portais são especialistas em cobertura local ou em nichos específicos que veículos maiores não abordam com a mesma profundidade. Esse tipo de conteúdo, muitas vezes hiperlocal ou altamente especializado, pode ficar ainda mais enfraquecido. Mesmo em um momento em que o Google conseguia enviar muito tráfego, diversos veículos tiveram dificuldades para se manterem. E agora?
- Diversidade de vozes: Incluir conteúdo de uma variedade de fontes, independentemente do tamanho, contribui para uma IA mais plural e menos enviesada. Mas isso interessa ao Google? Ao ter ao seu lado os principais formadores de opinião (ao menos não estarem em guerra!), o discurso dos menores pode não ter notoriedade necessária para mover governos e o judiciário.
Desafios a serem enfrentados
Apesar do potencial, os pequenos e médios portais enfrentam desafios consideráveis na negociação de acordos vantajosos com uma gigante como o Google:
- Poder de negociação desigual: Grandes veículos nacionais têm um poder de negociação infinitamente maior do que um portal pequeno ou médio. O Google pode priorizar acordos com grandes players devido à escala e ao alcance de seu conteúdo, exigindo menos esforço para fechar parcerias significativas.
- Recursos jurídicos e contratuais: A negociação de acordos de licenciamento de IA pode ser complexa, envolvendo termos jurídicos e tecnológicos intrincados. Pequenos portais muitas vezes não possuem os recursos jurídicos ou a experiência para navegar nessas negociações de forma eficaz. Além disso, processos demorados podem ser suficientes para que uma publicação tenha que fechar as portas.
- Monetização e escala: O Google pode não ver o mesmo retorno de investimento em licenciar individualmente centenas ou milhares de pequenos portais em comparação com um punhado de grandes corporações de mídia. A complexidade administrativa de gerenciar inúmeros contratos menores pode ser um obstáculo.
- Dependência contínua: Mesmo com acordos, os portais menores podem se tornar excessivamente dependentes da receita do Google, o que poderia minar sua independência editorial ou financeira a longo prazo, se os termos do acordo não forem equilibrados.
Perspectivas para pequenos e médios portais
Para que pequenos e médios portais consigam acordos vantajosos, algumas estratégias podem ser eficazes:
- Associações: agrupar-se em associações ou consórcios de notícias pode aumentar o poder de negociação coletivo, permitindo que falem com uma única voz e representem um volume maior de conteúdo diversificado.
- Foco na Qualidade e Especialização: investir na produção de conteúdo de alta qualidade, autêntico e especializado em nichos específicos pode tornar esses portais mais atraentes para o público, independentemente do tamanho, tentando conseguir monetização via fidelização.
Em resumo, embora os desafios sejam reais, a necessidade do Google por uma vasta gama de dados para treinar seus modelos de IA pode abrir uma janela de oportunidade para pequenos e médios portais.
No Congresso da Abraji, por exemplo, diretores de jornalismo e audiência informaram ter espaço aberto com o Google. Isso contrasta com centenas de outros portais que nem mesmo sabem como entrar em contato e com outros que apenas recebem respostas formais.
O licenciamento de conteúdo individual pode ser uma vitória para o veículo, mas é uma derrota para o setor, principalmente para aqueles que terão pouco ou nenhum poder de barganha e não conseguirão protagonizar grandes disputas nos tribunais.
Publisher do "Não é Agência!" e Especialista de SEO, Willian Porto tem mais de 21 anos de experiência em projetos de aquisição orgânica. Especializado em Portais de Notícias, também participou de projetos em e-commerces, como Americanas, Shoptime, Bosch e Trocafone.
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