‘Estadão’ e ‘O Globo’ ficam fora do tom na cobertura do processo de Folha de S.Paulo contra Open AI

Willian Porto
7 Min Read

Análise: Pares de Folha de S. Paulo ficam fora do tom ao noticiar o processo contra OpenAI, em que pese que o próprio processo é, de certa forma, fora do tom.

No último final de semana, ‘O Globo’ e ‘Estadão’ publicaram conteúdos sobre o processo que Folha de S. Paulo moveu contra OpenAI por uso indevido dos conteúdos pelo ChatGPT. Entretanto, as matérias não saem da superfície.

Entrevista ao ChatGPT

Com todo perdão, Estadão fez uma cobertura mais cômica do processo. Metade do conteúdo publicado foi uma entrevista com o próprio ChatGPT.

Nenhum jornal, por nenhum motivo, deveria tentar entrevistar chats generativos. Eles não são pessoas e não possuem personalidade própria. Tendem apenas regurgitar termos com maior probabilidade de fazer sentido no restante da sentença.

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Por mais que a entrevista possa fazer sentido, ela é inócua. É incapaz de trazer qualquer dado novo, além de um pretenso reconhecimento de que até o próprio produto reconhece que seus criadores estão errados. Mas chats generativos não são capazes de reconhecer nada.

Informa?

No jornal impresso, a primeira parte da cobertura se deu com o conteúdo factual abaixo:

Entretanto, como O Globo, diz muito pouco:

No caso de O Globo, o conteúdo pretendeu analisar mais a fundo aspectos das mudanças que a IA tem trazido na navegação das pessoas.

Entretanto, em ambos casos, os conteúdos não informam, de fato, o que está em jogo com a não remuneração justa para portais.

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No caso do portal carioca, pouco mais que uma exposição superficial foi realizada. Contar sobre a queda, mesmo com dados inéditos de Similarweb ajuda pouco aos leitores a ter um quadro completo.

Em Estadão, replicar os argumentos da defesa também contribui pouco.

Precisamos de mais.

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Avanços [destrutivos] de tecnologia

Em primeiro lugar, precisamos dar luz ao movimento de tecnologia, principalmente o generativo, como destrutor de postos de trabalho e, principalmente, dos aspectos mais caros à democracia.

Quando cospem respostas, normalmente, utilizam as respostas mais comuns e seguras. Se, por um lado, isso pode trazer mais segurança aos modelos, por outro, prejudica ainda mais debates complexos. Se ele traz respostas prontas, as pessoas precisam menos de pesquisas mais complexas, como os casos da sociedade necessitam.

Raramente assuntos como violência, educação e saúde podem ser respondidos com uma conversa de chat. Mas nós temos utilizado cada vez mais com esse intuito. Precisamos mostrar o quanto os chats têm colaborado negativamente com a democracia ao pasteurizar ainda mais o discurso.

Com isso, talvez, o ponto mais crucial, o jornalismo perde pela não necessidade da complexidade. Não precisamos do material denso e importante que as redações realizam (?) todos os dias.

Não precisamos dos pequenos e nichados portais, como Não é Agência, por exemplo. Os resultados, vistos de uma única forma, podem ser consumidos perfeitamente com o comum.

Talvez, as publicações não toquem nesse aspecto por não serem prejudicadas, a priori, por eles.

Personalização do debate

Principalmente no caso de Estadão, e até mesmo a própria peça jurídica da Folha de São Paulo, optam pela personalização do debate. Como se a OpenAI fosse a culpada por todos os males que os principais portais têm sofrido.

Embora o ChatGPT seja o principal produtivo de IA generativa no Brasil, hoje, sua ausência significaria pouco em termos de resultados financeiras e/ou audiência para os portais. As pessoas migrariam para Gemini, Perplexity, Grok ou qualquer outro.

Inclusive, a própria ideia de remuneração, embora justa e necessária, está na superfície do debate, uma vez que mesmo remunerados, boa parte dos portais terão dificuldade em se manter. As quedas orgânicas não serão compensadas por trocados enviados pelas Big Techs. Principalmente para os pequenos portais, nichados e hiperlocais.

Mais uma vez, talvez, as publicações citadas não toque nesse aspecto por não serem, a priori, prejudicadas por eles.

O debate não é, sobretudo, financeiro

Como vimos, o debate não é, sobretudo, financeiro. A petição da Folha de S.Paulo e a repercussão de O Globo e Estadão tendem a tratar o assunto como econômico. Vejam só, Big Techs têm roubado portais de notícia ao usar suas informações sem permissão.

Enquanto isso, deveríamos estar debatendo, de forma profunda, os impactos sociais, intelectuais, morais e também financeiros que as tecnologias estão trazendo à sociedade.

Mesmo quando é financeiro, não se trata sobre Folha de S. Paulo. Provavelmente, aqui, teríamos uma boa isca para tratar a doença como um todo, não sobre um sintoma dos mais abastados.

O debate não é neutro

O Globo até consegue, de alguma forma, tocar em aspectos importantes. Traz uma citação de Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e de um diretor de Agência. Entretanto, como mostramos nos pontos acima, insuficiente.

A única linha que versa sobre opções para o futuro falam de “negociar remuneração, limitar uso indevido e formatos que priorizem relacionamento direto com o leitor”. Das três opções citadas, duas delas trazem pouco ou nenhum valor para a maioria das publicações brasileiras.

O ponto aqui é que, talvez, a forma mais tradicional de fazer jornalismo não dê conta de responder às verdadeiras respostas que precisamos.

Nós, tradicionalmente, somos muito polidos com discursos apropriadamente cautelosos.

Não informamos quem são, de fato, aqueles que têm causado os males descritos.

Não informamos, de fato, quais são as verdadeiras soluções para o problema.

Não debatemos. Trazemos opções prontas e modeladas, que muitas vezes, vieram com objetivo de monetizar algum dos lados.

Por isso, por mais que sejamos totalmente favoráveis a remuneração e a opção opção de escolha dos portais em ceder ou não seus materiais, jamais acreditaremos que isso, por si só, resolverá os problemas que são mais densos e complexos.

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Publisher do "Não é Agência!" e Especialista de SEO, Willian Porto tem mais de 21 anos de experiência em projetos de aquisição orgânica. Especializado em Portais de Notícias, também participou de projetos em e-commerces, como Americanas, Shoptime, Bosch e Trocafone.

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