A paisagem digital está em constante evolução, e com ela, a forma como grandes empresas de tecnologia interagem com reguladores e concorrentes. Recentemente, de acordo com Bloomberg, o Google se viu no centro de discussões regulatórias na União Europeia (UE), o que pode levar a mudanças significativas em seus serviços de busca de viagens.
No entanto, por trás dessas negociações e decisões, um fator se destaca como cada vez mais influente: o lobby. A capacidade de empresas e setores de exercer influência nas discussões políticas e regulatórias tem se mostrado um diferencial crucial para a obtenção de benefícios e a moldagem do mercado.
A pressão regulatória da união europeia e o google
O Google está sob pressão da União Europeia devido à sua suposta preferência por serviços próprios em resultados de busca, como o Google Flights.
A Lei dos Mercados Digitais (DMA) da UE, que entrou em vigor no ano passado, visa impedir que grandes empresas de tecnologia abusem de seu domínio de mercado, tornando ilegal que plataformas deem preferência a seus próprios serviços ou combinem dados pessoais de diferentes serviços. As multas por violação podem chegar a 10% das vendas anuais globais, ou 20% para infrações repetidas.
Para evitar multas pesadas, o Google propôs destacar os resultados de busca de plataformas de compras e viagens de outras empresas no topo de sua página. Isso incluiria uma caixa mostrando opções classificadas de sites de empresas de comparação de preços, permitindo que os usuários acessem diretamente os sites de concorrentes como Expedia ou Booking, ou cliquem em resultados individuais para ir à página de um hotel ou companhia aérea. Essa movimentação do Google é uma resposta direta à pressão regulatória, mas também reflete a influência indireta e direta de players do mercado que buscam um campo de jogo mais nivelado.
Veja a repercussão:
O papel crescente do lobby na era digital
O caso do Google com a UE é um exemplo claro de como o lobby se tornou uma ferramenta indispensável para empresas e indústrias. Embora o artigo não detalhe as ações de lobby específicas da Expedia ou Booking, é inegável que empresas que competem com o Google em setores como viagens e compras têm um forte incentivo para pressionar os reguladores a agir contra práticas consideradas anticompetitivas.
O sucesso da DMA, e a subsequente pressão sobre gigantes da tecnologia, não é apenas resultado de uma preocupação regulatória abstrata, mas também do trabalho árduo de grupos de interesse e empresas que buscam um ambiente de mercado mais justo.
O lobby não se limita apenas a influenciar a criação de leis; ele também desempenha um papel fundamental na interpretação e aplicação dessas leis. Empresas com maior capacidade de lobby podem apresentar seus argumentos de forma mais eficaz, influenciando a percepção dos reguladores e, consequentemente, as decisões que afetam seus negócios. Em um cenário onde a regulamentação tecnológica está se tornando mais complexa e rigorosa, o investimento em estratégias de lobby é uma necessidade para proteger interesses e garantir competitividade.
Por exemplo, sabe-se que empresas como Expedia e Booking gastam centenas de milhões de reais com a promoção de anúncios. Ainda assim, serão premiadas de forma orgânica.
De acordo com InfoMoney, os últimos resultados da Expedia foram:
- – Receita: US$ 2,99 bilhões, alta de 3% em relação ao ano anterior
- – Lucro por ação: US$ 0,40, alta de 90% em relação ao ano anterior
- – Reservas brutas: US$ 31,5 bilhões, alta de 4%
- – EBITDA ajustado: US$ 296 milhões, com margem de 9,9%
O Booking não fica para trás. De acordo com ADVFN, o lucro operacional ajustado (EBITDA) foi de US$ 1,1 bilhão, representando crescimento de 21% em relação ao mesmo período de 2024. Os gastos com marketing cresceram levemente, representando 3,8% das reservas brutas, ante 3,7% no ano anterior.
Ou seja, dentre os milhares de negócios prejudicados pelo Google, os principais beneficiados estão crescendo tanto em lucro quanto receita.
Isso mostra que, na maioria dos casos, os legisladores e juízes estão longe de conseguirem debater de forma profunda o impacto dos produtos Google e, principalmente, da Inteligência Artificial. Nesse sentido, grandes companhias conseguem ressarcimento, mesmo sem impactar diretamente o negócio, enquanto pequenas empresas e áreas esquecidas enfrentam sérias dificuldades.
Casos de sucesso: como o lobby molda o mercado de tecnologia
Além do Google, outras gigantes da tecnologia também sentiram o peso da DMA e as consequências de um lobby eficaz por parte de seus concorrentes ou grupos de interesse. A Apple Inc. foi multada em €500 milhões sob a DMA e, em resposta, ofereceu uma reformulação de sua App Store para tornar mais barato e menos oneroso para desenvolvedores terceirizados direcionar clientes para fora do ecossistema Apple para pagamentos. Da mesma forma, a Meta Platforms Inc. foi multada em €200 milhões por seu serviço “consentimento ou pagamento” sem anúncios no Instagram e Facebook.
Esses casos demonstram que as decisões regulatórias e as consequentes mudanças nas práticas de negócios são frequentemente o resultado de um complexo jogo de influências. As empresas afetadas, por sua vez, empregam suas próprias estratégias de lobby para mitigar multas, negociar termos mais favoráveis ou moldar a percepção pública e política sobre suas operações. O lobby, portanto, não é apenas uma ferramenta de ataque para concorrentes, mas também uma estratégia de defesa vital para as empresas reguladas.
O cenário geopolítica do lobby
A agressividade da UE em regular as grandes empresas de tecnologia dos EUA tem gerado tensões geopolíticas. A administração do ex-presidente Donald Trump, por exemplo, criticou as multas da DMA, chamando-as de “uma nova forma de extorsão econômica”. Isso destaca como as ações de lobby e as decisões regulatórias podem ter repercussões que vão além do âmbito comercial, afetando as relações entre blocos econômicos e países.
Negociações comerciais críticas entre a UE e os EUA são influenciadas por essas tensões, onde o lobby de diferentes setores e governos desempenha um papel em moldar a agenda e os resultados. A capacidade de um país ou bloco de exercer pressão política e econômica sobre outro é uma forma de lobby em escala macro, com impactos profundos na economia global e nas relações internacionais.
O futuro das demais áreas e a influência do lobby
Quando pensamos em portais de notícias e conteúdo, o cenário não é distinto. Em outros países, é comum ver acordos isolados para grandes corporações, garantindo a sobrevivência delas, enquanto o jornalismo local ou segmentado continua com as mesmas dificuldades.
Dessa forma, a desigualdade aumenta e torna ainda mais complexo para Publishers independentes continuarem seu trabalho, gerando vazios jornalísticos.
O poder público deve analisar a questão de forma ampla e global com olhar para aqueles em que a tecnologia tem feito o trabalho inviável, evitando interferências em setores que continuam se mostrando lucrativo. Além disso, as intervenções devem ser usadas para trazer mais igualdade de oportunidades. Na maioria das vezes, isso dificilmente acontecerá dando oportunidades para os maiores do mercado.
Publisher do "Não é Agência!" e Especialista de SEO, Willian Porto tem mais de 21 anos de experiência em projetos de aquisição orgânica. Especializado em Portais de Notícias, também participou de projetos em e-commerces, como Americanas, Shoptime, Bosch e Trocafone.
- Willian Portohttps://naoeagencia.com.br/author/naoeagencia/
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