- No Youtube, em português, há milhares de vídeos ensinando a como criar conteúdo por IA para monetizar
- As estratégias incluem compra de tráfego, manipulação de dados sociais e criação de conteúdo em massa
- Um criador afirma ter recebido mais de 120 mil reais, operando dezenas de sites com milhões em audiência
- Embora o Google diga estar se esforçando, os resultados ainda são pequenos
- Precisamos de legislações que obriguem o Google a fazer verificações manuais para quem se intitule como portal de notícias
Audiência é um dos principais assuntos tratados em Não é Agência. Em diversas vezes, mostramos o quanto bons sites têm sofrido com quedas inesperadas. Mas e quando se fale de portais que criam notícias em massa com único objetivo de monetização?
- Como funciona?
- O Google Discover como “Máquina de Dinheiro”
- Como a fraude se espalhou
- Como funciona?
- No Brasil
- Vídeo 2 – Prompts + Plugin
- Video 3 – Uso de ChatGPT
- Video 4 – Plugins
- Video 5 – Possibilidade de 100% de acréscimo de tráfego
- Video 6 – Criação de Links em massa
- Vídeo 7 – Pessoas administram grandes redes de sites
- Video 8 – Conteúdo infinito
- A resposta do Google
- Uma resposta à resposta do Google
O premiado jornalista francês Jean-Marc Manach revelou a existência de mais de 4.000 sites de notícias falsas impulsionados por inteligência artificial generativa, criados com o objetivo de manipular o Google Discover e os resultados de busca.
Embora a maioria desses sites esteja em francês, Manach alertou a Press Gazette que já existem pelo menos 100 em inglês, e isso pode ser apenas a “ponta do iceberg”.
Como funciona?
Os criadores desses sites de notícias falsas, em sua maioria, são especialistas em otimização para mecanismos de busca (SEO). Eles utilizam a IA para gerar artigos que são plagiados de outras fontes ou simplesmente inventados. O objetivo principal é monetizar através de backlinks (impulsionando artificialmente o ranking de outros sites) ou aparecendo no Google Discover para colher receita de anúncios.
Manach, um jornalista investigativo com vasta experiência em privacidade e vigilância desde o final dos anos 90, começou a investigar o problema no início de 2024, após notar sites desconhecidos. Inicialmente, ele encontrou apenas 70, mas com a ajuda de seus alunos e, posteriormente, de jornalistas do jornal francês Libération, o número de sites identificados saltou para 250 em outubro e, chocantemente, para mais de 4.000 desde então. Ele descreve a tarefa como “sisífica” e acredita que pelo menos dois proprietários de sites se tornaram milionários com essa prática.
O Google Discover como “Máquina de Dinheiro”
Um ponto crucial na investigação de Manach foi a constatação de que o Google Discover, um feed de notícias presente no aplicativo do Google e em dispositivos Android, parece “incapaz de lidar” com esses sites de notícias gerados por IA. Para os operadores, o Discover se tornou uma “máquina de dinheiro”, permitindo-lhes gerar milhares de dólares por dia em receita de publicidade. A monetização ocorre através de anúncios exibidos nos próprios sites, veiculados via Google AdSense, após os usuários clicarem em conteúdo recomendado pelo Discover.
Manach exemplifica o tipo de desinformação que o algoritmo do Google Discover tem recomendado: notícias completamente falsas como a de que cédulas deixariam de existir na França em outubro de 2025, que avós não poderiam mais transferir dinheiro para seus netos, ou que o governo removeria dinheiro de contas poupança para financiar a guerra na Ucrânia.
Histórias ainda mais surreais, como a descoberta de uma pirâmide de 25.000 anos sob uma montanha ou um predador gigante semelhante a um dodo encontrado sob o gelo da Antártida, também foram veiculadas. Muitos desses artigos, segundo Manach, apresentam ilustrações e títulos claramente gerados por IA.
Como a fraude se espalhou
O rápido crescimento desses sites na França é atribuído, em parte, à proliferação de tutoriais no YouTube em 2023 e 2024, que ensinam “como hackear o Google Discover” usando IA generativa. Manach acredita que essas técnicas são amplamente conhecidas entre os profissionais de SEO. Agora, mais e mais editores estão entrando no negócio em outros idiomas, já que o mercado francês é considerado “superlotado” por alguns operadores.
Manach identificou 120 empresas e editores por trás desses sites na França, incluindo dez publicados por um jornalista e treinador de mídia. Outros sites são antigas plataformas de notícias que substituíram jornalistas por IA sem informar seus leitores. Marcas registradas de sites falsos incluem autores inexistentes sem perfis no LinkedIn e ilustrações sem crédito a fotógrafos ou agências de notícias.
O jornalista alerta que é cada vez mais difícil identificar “deep fakes” e conteúdos sintéticos gerados por IA, e que combater essa “poluição” é crucial não apenas para o jornalismo, mas também para a democracia e o direito à informação. Ele espera que mais jornalistas e verificadores de fatos se engajem na documentação e combate a esse problema, especialmente considerando que o Google não só promove esse conteúdo gerado por IA, mas também começou a substituir links de busca por “AI Overviews”.
A preocupação de Manach se aprofunda com o fato de que grande parte desse conteúdo gerado por IA é, por sua vez, gerado a partir de conteúdo também criado por IA.
Como funciona?
No Brasil, o cenário não é diferente. Podemos encontrar, facilmente, mais de 200 vídeos no Youtube ensinando a como conseguir tráfego com Discover. Normalmente, utilizando Inteligência Artificial, sem real compromisso com o conteúdo postado:
Video 01: Consiga audiência em massa. Como? Comprando!
Para que o seu conteúdo apareça no Google Discover, o algoritmo precisa de um “sinal” inicial de que as pessoas estão interessadas.
O site usado para mostrar que o serviço funciona é o crickyukti.com.
Sem uma audiência existente, isso é difícil. O vídeo apresenta duas formas de conseguir isso:
Método 1: Publicação em massa (gratuito, mas sem garantia)
- Como Funciona: Crie e publique uma grande quantidade de conteúdo e Web Stories de forma consistente.
- Garantia: Este método não tem garantia de sucesso. O seu blog pode ou não ser escolhido pelo Discover.
- Melhores Nichos: Funciona melhor em nichos de amplo apelo, como empregos, programas governamentais e notícias, que geram mais receita. Evite nichos com baixo RPM (Receita por Mil Impressões), como críquete.
- Desvantagem: É um jogo de sorte e exige um volume de trabalho muito alto.
Método 2: Comprar tráfego inicial (Pago e mais eficaz)
- Como funciona: Esta é a estratégia mais recomendada e eficaz. Consiste em pagar para direcionar um fluxo inicial de visitantes para os seus novos artigos.
- Onde comprar: Procure por pessoas ou serviços que vendem tráfego em grupos de WhatsApp, Telegram e fóruns de blogs.
- Como pedir: Entre em contato e pergunte se eles podem promover o link do seu artigo para a audiência deles (geralmente via notificações push).
- O efeito: Esse pico de tráfego inicial e instantâneo sinaliza ao Google que o seu conteúdo é interessante, aumentando drasticamente a chance de ele ser incluído no feed do Discover. O próprio apresentador confirma que usou este método em seu blog de exemplo.
No Brasil
Este exemplo indiano está longe de ser isolado. Encontramos vários conteúdos parecidos no Brasil.
Vídeo 2 – Prompts + Plugin
Pedro Bueno explica quais são seus métodos. Ele diz utilizar dois prompts para realizar os conteúdos automatizados, focados em vendas e comparações de celulares. No vídeo, ele conta que o curso tem um módulo sobre como utilizar domínios expirados:
Video 3 – Uso de ChatGPT
Aqui, o canal Dicas Sabidas ensina a fazer Webstories com foco em Discover utilizando ChatGPT:
Video 4 – Plugins
O Pr. Pedro Bueno volta para mais um vídeo. Agora, mostra o uso de um plugin. Funciona a partir de vídeos do Youtube e o plugin cria um artigo.
Curiosamente, o site em questão tem como chamada “Domine o Jornalismo Digital”:

Video 5 – Possibilidade de 100% de acréscimo de tráfego
Aqui, temos mais um canal ensinando a fazer conteúdos, via plugin e ChatGPT, com foco em Google Discover.
Video 6 – Criação de Links em massa
Ainda em Webstories, o canal ensina a fazer conteúdos em massa:
Vídeo 7 – Pessoas administram grandes redes de sites
No vídeo abaixo, Vínicius mostra como conseguiu mais de 120 mil reais administrando 25 sites de “notícias”. Em determinado momento, exibe informações sobre sua audiência: 4 milhões em um período de 90 dias. Afirma ganhar mais de 50 dólares por dia com seus sites em monetização de Google Adsense.
Video 8 – Conteúdo infinito
No caso abaixo, os conteúdos são realizados de forma automática, sem a necessidade de supervisão:
A resposta do Google
O Google afirma ter políticas robustas contra sites de spam, especialmente aqueles que usam IA para gerar artigos, e que fiscaliza rigorosamente o Google Discover.
Um porta-voz declarou à Press Gazette: “Nossos sistemas de combate a spam lutam agressivamente contra conteúdo de baixa qualidade e produzido em massa, mantendo a vasta maioria fora do Discover e mantendo a Busca 99% livre de spam. Temos políticas claras contra conteúdo criado – independentemente de ser produzido por humanos ou IA – com o propósito principal de manipular os rankings da Busca, e tomamos medidas contra sites conforme apropriado.”
Manach enfatiza a necessidade de os jornalistas desenvolverem novas formas de demonstrar a superioridade de seu trabalho em relação aos artigos gerados por IA. Ele defende que o público precisa saber se está lendo “artigos reais” ou conteúdo sintético de IA, e que os reguladores precisam rotular o conteúdo gerado por IA, penalizar aqueles que mentem sobre isso e não são transparentes, e defender o trabalho jornalístico “real”.
Uma resposta à resposta do Google
Com todos os vídeos que, talvez, você tenha visto, fica claro que a atuação do Google não é suficiente. Enquanto portais que praticam, de fato, jornalismo não têm a relevância necessário, outros, que visam apenas monetização direta ou indireta, conseguem ter sucesso.
Cabe aqui mencionar que uma punição futura não é suficiente. Em primeiro lugar, essas pessoas não têm a menor dificuldade em criar um novo projeto e continuar com a “criação de notícias”. Depois, o tráfego deixado por essas pessoas não é transferido para quem, de fato, cobre assuntos pertinentes.
Antes de 2020, Google News, por exemplo, necessitava de aprovação manual, que foi. substituída por algoritmos. Isso se torna um grande retrocesso para a sociedade, uma vez que os algoritmos são, quase sempre, mais facilmente manipulados.
Ao contrário disso, o Google precisa instituir alguma burocracia no processo de aceite para tráfegos volumosos de News e, principalmente, Discover, como:
- aceitar portais de notícias que publiquem a pelo menos 1 ano;
- expirar aceite após inatividade de tráfego no portal de 90 dias;
- colher informações de contato de todos os portais de notícia.
Além disso, a sociedade precisa se precaver legalmente contra notícias visivelmente fraudulentas, levando a processo civil e criminal.
O que não é possível é permitir que em poucos dias um site tenha acesso a grande quantidade de tráfego, sem demonstrar capacidade em responder pela exatidão do que foi publicado.
Quantas vezes não lamentamos quando portais e veículos fecham as portas? Mas, nesse momento, precisaremos nos alegrar quando falsos portais de notícias de notícias fecharem as portas por falta de relevância, autoridade e tráfego.
Publisher do "Não é Agência!" e Especialista de SEO, Willian Porto tem mais de 21 anos de experiência em projetos de aquisição orgânica. Especializado em Portais de Notícias, também participou de projetos em e-commerces, como Americanas, Shoptime, Bosch e Trocafone.
- Willian Portohttps://naoeagencia.com.br/author/naoeagencia/
- Willian Portohttps://naoeagencia.com.br/author/naoeagencia/
- Willian Portohttps://naoeagencia.com.br/author/naoeagencia/
- Willian Portohttps://naoeagencia.com.br/author/naoeagencia/

