Matthew Prince, da Cloudflare, diz que OpenAI pode ser a nova Google

Willian Porto
9 Min Read

Será que a OpenAI tem mesmo potencial para substituir o Google como guardião da Internet?

Matthew Prince, cofundador da Cloudflare, expressa profunda preocupação com o futuro da internet, argumentando que os chatbots de inteligência artificial estão desestabilizando o modelo de negócio que sustentou a web por décadas. A sua conexão com a causa é pessoal, já que ele é editor de um jornal local e tem um “carinho pela indústria da mídia”.

Na mesma entrevista em que mostrou o quanto o Google tem se tornado irrelevante para alguns editores, fala sobre a relação dos Chats de IA com o futuro da Internet.

Chats de IA como nova ameaça

A origem deste projeto, que ele descreve como “ortogonal” às operações típicas da Cloudflare, começou há cerca de um ano e meio. “Um punhado de editores que nos usavam começou a nos procurar e a dizer: ‘Temos uma nova ameaça à segurança. Temos uma nova ameaça ao nosso modelo de negócio. São as empresas de IA’.”

Os dados da Cloudflare confirmam a urgência. Prince revela que, há um ano e meio, “era cerca de 125 vezes mais difícil obter tráfego de referência de um chatbot de IA em comparação com o Google.” Hoje, a situação é “até 750 vezes mais difícil.” O cenário é ainda pior para a Anthropic, cujo “índice de referência é ainda mais assustador. A Anthropic hoje é 37.000 vezes mais difícil do que o Google de antigamente.”

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O confronto com os chatbots de IA

Para combater a crise, a Cloudflare lançou a iniciativa “pay-per-crawl”, que permite que os editores cobrem das empresas de IA pelo acesso ao seu conteúdo. A ideia é usar a influência da Cloudflare, que gerencia 20% do tráfego da web, para forçar as empresas de IA a negociarem.

Prince acredita que o Google é a única empresa com o poder de resolver o problema. O monopólio de busca do Google “lhe dá uma poderosa vantagem contra concorrentes como o ChatGPT“.

A empresa enfrenta um dilema, pois, para competir com os chatbots de IA, utiliza sua própria IA, Gemini, para responder diretamente às perguntas nos resultados de busca, o que diminui o tráfego de referência para os sites.

Prince argumenta que o Google, que “historicamente… acreditou ter o direito divino de ter acesso a todo esse material” de graça, agora pode ser forçado a mudar. O cenário atual, com 16 agências reguladoras avaliando as práticas do Google, pode levar a uma solução. Caso contrário, editores podem simplesmente começar a usar a Cloudflare para bloquear o rastreador do Google, o que seria “impensável” há dois anos.

Paralelo entre OpenAI e Perplexity

A Cloudflare está identificando os “bons” e “maus” atores do setor de IA. Matthew Prince aponta a OpenAI como um “bom ator”, citando: “A boa notícia é que também há alguns atores realmente bons. OpenAI é realmente um bom ator em termos de tudo o que podemos ver. Eu acho que eles realmente acreditam no ecossistema. Eu acho que eles têm a melhor chance de ser a espécie do próximo Google em termos do verdadeiro patrono da web que existe por aí. E então você não precisa ser um mau ator para ser uma boa empresa de IA.”

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Em contraste, a Perplexity é descrita como o “primeiro mau ator que pegamos fazendo algumas coisas muito ruins”. Prince acusa a empresa de “fraude” ao pegar resumos de conteúdo e publicá-los como se fossem de veículos como a People Magazine ou o New York Times, mesmo sem ter acesso ao conteúdo original. A Cloudflare está tornando mais difícil para essas empresas “roubarem” conteúdo, transformando a simples cópia em uma violação de segurança cibernética, sujeita a ações legais.

Vale lembrar que, recentemente, as empresas discutiram sobre a validade de rastrear sites, mesmo quando os proprietários não desejam que isso aconteça.

No Brasil, entretanto, quem sofreu o primeiro processo foi a OpenAI. A Folha de S.Paulo acusou a empresa de usar seus dados de maneira indevida, mesmo quando protegidos por paywall.

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Isso indica que, na realidade, a empresa não tem realizado esforços significativos para aprimorar o ecossistema.

Três possíveis futuros para a Web

Prince delineia três cenários para a internet na era da IA:

  1. O cenário Niilista: Ele descreve o “resultado super niilista”, no qual jornalistas e acadêmicos “vão morrer de fome e morrer porque não há mais modelo de negócio”.
  2. A versão Black Mirror: Nesta opção assustadora, “as cinco grandes empresas de IA vão empregar verticalmente todos os jornalistas, pesquisadores e acadêmicos em seu próprio mundo.” O conhecimento se centralizaria em silos, o que é “o oposto do que a internet fez.”
  3. A opção mais atraente (segundo Prince): Prince considera o modelo da Netflix a alternativa “mais atraente”. “É onde aceitamos o fato de que as empresas de IA estão efetivamente em um negócio que é mais semelhante ao da Netflix.” A competição se basearia em conteúdo exclusivo, com empresas de IA pagando uma porcentagem da receita para os criadores, assim como acontece na indústria da música com o Spotify.

Prince compara o dilema atual com a luta contra a pirataria de música: “Você ainda pode piratear a música que quiser. É que agora é mais fácil gastar 10 dólares por mês e usar o Spotify.” Ele acredita que o mesmo modelo pode ser aplicado ao conteúdo de texto, tornando mais fácil e menos arriscado pagar pelo acesso do que roubar. Como mostramos na primeira parte, esse argumento é questionável.

O que vem a seguir?

Se o Google aceitar mudar sua política, o próximo desafio técnico será criar um sistema de pagamento global escalável. Prince menciona a possibilidade de o blockchain e as criptomoedas serem úteis para resolver o problema de taxas bancárias em locais como a África Subsaariana.

Ele também sugere um novo modelo de precificação. Em vez de pagar por palavra, o pagamento seria baseado em quanto um conteúdo “está realmente adicionando à base de conhecimento.” Prince cita o exemplo de um repórter de trânsito em Indianápolis: um conteúdo único sobre o tráfego na Interestadual 70 seria valioso para uma empresa de IA com clientes na região.

A ideia é relevante. Como temos defendido nos últimos meses, boas formas de remuneração devem considerar as fontes primárias de informação em vez de apenas o rastreamento do site. Por exemplo, uma mesma entrevista de um político movimenta centenas de portais diferentes, ainda que a fonte primária tenha sido apenas uma.

Vale lembrar que a Cloudflare, no final das contas, quer transparecer defender a web. “Se a internet deixar de existir, a Cloudflare deixa de existir.” Entretanto, muitos veem os argumentos como posição de mercado.

Além disso, Prince acredita que esta iniciativa pode ser “crítica para salvar o mundo“, pois ao recompensar o conteúdo único e de qualidade, pode ajudar a combater a polarização e a desinformação. Seja por seu próprio interesse, seja por desejo genuíno em salvar a Web, a Cloudflare tem colaborado para criar um debate.

Publisher e Especialista em SEO | Web |  + posts

Publisher do "Não é Agência!" e Especialista de SEO, Willian Porto tem mais de 21 anos de experiência em projetos de aquisição orgânica. Especializado em Portais de Notícias, também participou de projetos em e-commerces, como Americanas, Shoptime, Bosch e Trocafone.

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