Jornalismo e Taylor Swift: como a IA pode reescrever a história?

Willian Porto
6 Min Read

Pior que errar é perpetuar o erro. Portais têm atitude distintas quanto ao desfecho da não vinda de Taylor ao Brasil. IAs tratam com cautela o fato.

O dia 5 de setembro foi confuso para muitos fãs de Taylor Swift, bem como para o jornalismo em geral. Neste dia, esperava-se que a cantora desembarcasse no Brasil para ver o jogo de futebol americano do seu atual noivo.

Entre a expectativa dos fãs e a realidade estava o anuncio feito pela Rede Globo que dizia que Taylor estaria em São Paulo. Confira:

Entretanto, o anuncio não se confirmou. Depois, os pedidos de desculpa se acumularam.

Inicialmente, José Renato Ambrósio:

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Depois Jorge Iggor:

Por fim Mariana Spinelli:

Embora o objetivo deste artigo não seja falar especificamente sobre os erros de apuração, deve-se registrar que é um erro. Ou, por um lado, alguma fonte forte usou de má fé ou na pressa em noticiar, houve falha de apuração.

Enquanto dizia-se que a cantora já tinha chegado, ela não tinha nem mesmo saído de seu país para a longa viagem.

Corre-corre

No embalo, principalmente, da notícia veiculada pela Globo, vários portais correram para tentar minimizar os danos.

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Na imagem abaixo, observe como VEJA criou dois artigos, um em tom de afirmação (ela está!) e outro, depois, com interrogação. O primeiro foi redirecionado ao segundo sem mais cerimônias.

Por outro lado, ESTADÃO, que também compartilhou o fato impreciso, teve uma reação mais transparente com seu público. Manteve o conteúdo como foi publicado, deixando uma atualização sobre o caso:

Estadão deixa a página original e acrescenta uma atualização no topo da matéria para indicar a não vinda da cantora. Fonte: Reprodução

A revista Quem também preferiu por modificar o conteúdo. Observe que o link da matéria dizia que Taylor Swift estava no estádio.

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Nesse caso, há o registro no Wayback Machine do conteúdo original.

Infelizmente, a revista não assume nenhum tipo de responsabilidade pela informação incorreta. No caso, torna-se mais fácil escrever, uma vez que não se assume nenhum tipo de ônus pelo que se diz. Em caso de erro, culpabiliza quem informou primeiro.

Deixa para lá

Se houve quem corresse para diminuir os danos, existiu também quem esqueceu que produziu o conteúdo impreciso.

Veja como, na data da publicação deste conteúdo, ainda está ativo o conteúdo de OTEMPO:

OTEMPO afirmou que a cantora desembarcou em São Paulo. Link permanente na Wayback Machine

O jornal chegou a dizer o horário em que a cantora desembarcou, bem como mostrou uma suposta imagem da chegada. Nestes momentos, aparentemente, escrever o termo suposto é salvo-conduto para compartilhar qualquer tipo de informação, sem checagem.

A reescrita da história

Entretanto, o ponto mais importante deste conteúdo é sobre a possível reescrita da história. Com a Inteligência Artificial Generativa fatos podem ser modificados ou transmitidos de maneira diferente de seu contexto original.

Com a massiva produção de conteúdo (ás vezes, apenas 1 citação basta!), os fatos podem ser profundamente modificados. Quando se fala de AI Overviews, por exemplo, os resultados podem ser adulterados em poucos dias.

Vamos ver como alguns chats de IA se comportaram dois dias depois da ausência de Taylor Swift.

Grok

Por um lado, Grok não afirmou que a cantora esteve no Brasil. Por outro, teve dificuldades em afirmar que ela não esteve no estádio. Preferiu uma resposta dúbia. Se não conseguiu transmitir a verdade, ao menos, não forneceu informações enganosas.

Grok colocou a vinda em dúvida, informando os portais que afirmaram, bem como os que negaram

ChatGPT

Nos mais variados testes, o ChatGPT tem levado vantagem. Ele disse, no caso Veríssimo, que o autor não havia falecido. Ele também foi o primeiro a reconhecer um conteúdo recém-publicado. Mais uma vez, a ferramenta foi capaz de dizer que Taylor não esteve no Brasil.

GPT desmentiu rapidamente a notícia da vinda de Taylor ao Brasil

Gemini

Por outro lado, mais uma vez, Gemini foi facilmente enganado. Embora tenha mostrado um registro dúbio, mostrou como fonte, justamente, o conteúdo do site OTEMPO (destacado acima) com a informação da presença da cantora.

Gemini, em um discurso dúbio, diz que “há relatos” da vinda de Taylor ao Brasil.

Lições ao jornalismo

Para além do lugar comum de verificar fontes e informações, precisamos, mais uma vez, lidar com o que fazer depois que um erro foi cometido.

A piro decisão possível é, simplesmente, deixar para lá. Deixar a informação errada disponível, atualmente, ajuda com que as IAs recriem a história ou tenham dúvidas sobre ela. Ou seja, é de interesse público que toda informação desatualizada ou incorreta seja corrigida.

Outro ponto, lamentável, é a ausência de descrição de erro. Quando existiu, culpabilizou quem forneceu a informação, eximindo os redatores do erro. No ecossistema da Web, menos pessoas investigam fatos. Mais pessoas publicam o que alguém disse. Isso exime do erro, mas os faz co-participantes no acerto. Uma posição confortável.

Por fim, no mesmo aspecto, modificar todo o texto é também reescrever a história. Nesse caso, a história do seu próprio erro. Fingir que não houve erro não funciona.

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Publisher do "Não é Agência!" e Especialista de SEO, Willian Porto tem mais de 21 anos de experiência em projetos de aquisição orgânica. Especializado em Portais de Notícias, também participou de projetos em e-commerces, como Americanas, Shoptime, Bosch e Trocafone.

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