Em 14 de janeiro de 2026, o jornalista Lauro Jardim publicou no X um post resumindo dados de uma pesquisa da Genial/Quaest sobre expectativas econômicas para 2026, com link para uma matéria hospedada no site de O Globo, protegido por paywall.
Pouco depois, um usuário marcou o perfil Grok com um pedido direto: “transcreva o conteúdo da matéria”. A resposta foi pública, imediata e detalhada, reproduzindo título, autoria, data de atualização e os principais dados do texto — informações suficientes para dispensar completamente o acesso ao site original.
O episódio, apesar de pontual, ilustra um movimento cada vez mais recorrente: usuários utilizam o próprio X (antigo Twitter) como intermediário para acessar conteúdos jornalísticos fechados, seja via IA, seja por perfis que “resumem”, “explicam” ou simplesmente reproduzem trechos integrais de matérias pagas.

O exemplo acima está muito longe de ser um caso isolado.

Apenas nas últimas 24 horas, 72 pedidos de resumos foram feitos, de maneira literal, no X. Após o pedido, todos os usuários impactados com a publicação podem ver o resumo feito em páginas da Internet, arquivos e vídeos.
O impacto direto e negativo para os publishers
Do ponto de vista dos veículos de imprensa, o efeito é estruturalmente nocivo. O paywall existe para sustentar financeiramente a produção jornalística, seja via assinatura, seja via métricas de engajamento que justificam modelos híbridos de monetização.
Quando o conteúdo fechado passa a circular livremente em plataformas externas:
- o publisher perde tráfego qualificado;
- o incentivo à assinatura diminui;
- o valor percebido do conteúdo exclusivo é corroído;
- métricas internas (pageviews, tempo de permanência, conversão) deixam de refletir o real interesse do público.
Há ainda um agravante: o conteúdo “vazado” via X não é redistribuído de forma neutra, mas mediado por recortes, resumos ou transcrições feitas por terceiros — ou por modelos de IA — fora do controle editorial do veículo.
Mudanças no consumo de notícias: da fonte ao intermediário
Para o leitor, a experiência também se transforma. O consumo deixa de ser centrado no veículo jornalístico e passa a ocorrer:
- dentro da timeline de uma rede social;
- mediado por influenciadores, perfis anônimos ou IA;
- em formatos fragmentados, descontextualizados e instantâneos.
Na prática, o X assume um papel que vai além da distribuição: torna-se um substituto funcional da visita ao site. O leitor “se informa” sem nunca acessar o domínio do jornal, sem ver anúncios, sem conhecer o contexto mais amplo da matéria e sem contato com a marca editorial.
Isso reforça uma lógica de consumo superficial, baseada em dados isolados, e não em reportagens completas, análises ou narrativas mais profundas.
Consequências para a produção de conteúdo jornalístico
No médio e longo prazo, esse tipo de dinâmica pressiona toda a cadeia de produção de conteúdo. Se o investimento em reportagem, apuração e análise não se converte em retorno financeiro ou institucional, o incentivo econômico à produção de jornalismo de qualidade diminui.
Os efeitos mais prováveis incluem:
- priorização de conteúdos mais rasos, facilmente “consumíveis” e replicáveis;
- redução de investimentos em reportagens exclusivas;
- aumento da dependência de plataformas externas para distribuição;
- perda de autonomia editorial frente aos intermediários tecnológicos.
Além disso, cria-se uma assimetria evidente: plataformas e sistemas de IA se beneficiam do trabalho jornalístico, enquanto os veículos arcam com os custos — humanos, financeiros e reputacionais — sem a contrapartida proporcional.
Um problema que vai além do X
O uso do X para contornar paywalls não é apenas um “truque” de usuários mais engajados. Ele expõe uma fragilidade mais ampla do modelo atual de distribuição de notícias, especialmente em um ambiente dominado por plataformas, IA generativa e consumo instantâneo.
Sem mecanismos claros de proteção, atribuição e compensação, o risco é que o jornalismo profissional continue financiando, involuntariamente, ecossistemas que competem diretamente com ele — e que, no limite, colocam em xeque sua sustentabilidade.
Publisher do "Não é Agência!" e Especialista de SEO, Willian Porto tem mais de 21 anos de experiência em projetos de aquisição orgânica. Especializado em Portais de Notícias, também participou de projetos em e-commerces, como Americanas, Shoptime, Bosch e Trocafone.
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