Desde que se consolidou como principal porta de entrada da internet, o Google convive com uma contradição central: ao mesmo tempo em que afirma combater a pirataria, seu próprio ecossistema de busca, indexação e distribuição de conteúdo segue permitindo que obras protegidas por direitos autorais sejam acessadas com extrema facilidade.
- 2007: a pirataria entra no debate corporativo
- 2012: a promessa algorítmica
- 2013: números impressionantes, impacto reduzido
- 2014: esconder não é resolver
- 2017: a ilusão da solução definitiva
- 2018: transparência institucional, pouca mudança prática
- 2020: o discurso do “está diminuindo”
- 2022: seis bilhões de links removidos, mas… o problema persiste
- A posição oficial vs. a realidade observada
- Conclusão
Mostramos, recentemente, como o Google tem veiculado conteúdo pirata relacionado às obras de Harry Potter (seja em texto, seja em vídeo) livremente.
O histórico dessa relação não é recente, tampouco episódico. Ao longo de quase vinte anos, o que se observa é uma sucessão de anúncios, ajustes pontuais e relatórios de transparência que, na prática, não alteraram a experiência do usuário nem ofereceram proteção efetiva aos detentores de direitos.
2007: a pirataria entra no debate corporativo
Em 2007, o tema deixa de circular apenas entre estúdios, editoras e órgãos reguladores e passa a ganhar contornos de disputa entre gigantes da tecnologia. Naquele ano, a Microsoft acusa publicamente o Google de lucrar indiretamente com a pirataria, ao indexar páginas ilegais e monetizá-las por meio de publicidade.
A crítica, publicada pelo jornal O Tempo, não se limitava ao aspecto legal, mas apontava um problema estrutural: o modelo de negócios do Google dependia da ampliação constante do volume de páginas acessadas, independentemente da origem do conteúdo. Quanto mais cliques, maior a receita publicitária.
Naquele momento, a expectativa era de que o Google fosse forçado a assumir algum grau de responsabilidade editorial sobre o que promovia nos resultados de busca. Isso, porém, não ocorreu. A empresa manteve a narrativa de neutralidade tecnológica, alegando que apenas organizava informações disponíveis na web.
Google ou justiça?
Por mais que conteúdo pirata sobre transmissões online estejam bloqueados, em muitos casos, como futebol, estão mais sobre aspectos judiciais do que sobre aspectos de busca. Ao procurar com VPN, é possível acessar a maioria dos sites piratas sem dificuldades.

2012: a promessa algorítmica
Cinco anos depois, em 2012, o Google anuncia mudanças no algoritmo da Busca com o objetivo de rebaixar sites frequentemente denunciados por violação de direitos autorais. Reportagens do Tecnoblog e da Gazeta do Povo descrevem o movimento como um endurecimento da política antipirataria, com o uso de notificações DMCA como sinal negativo de ranqueamento.
O discurso oficial era claro: sites piratas perderiam visibilidade, tráfego e relevância. Na prática, o efeito foi limitado. Plataformas ilegais rapidamente se adaptaram, trocando domínios, criando versões espelhadas e explorando buscas mais específicas, menos monitoradas.
O episódio revelou um padrão que se repetiria nos anos seguintes: o Google reage ao problema, mas a pirataria reage mais rápido ao Google.
Auxílio direto e indireto
Além de providenciar material pirata, o Google também usa seu ecossistema para auxiliar os usuários. Se você deseja, por exemplo, craquear uma cópia do Windows, ou seja, transformar uma cópia pirata em legal, o Google auxilia enviando, sem nenhum tipo de preocupação, material presente no Youtube. É um tipo de pacote completo.

2013: números impressionantes, impacto reduzido
Em 2013, o Google passa a divulgar números cada vez mais elevados de links removidos. Segundo a revista Superinteressante, mais de 105 milhões de URLs haviam sido apagadas dos resultados de busca a partir de denúncias formais.
O volume chamou atenção, mas também expôs uma fragilidade do modelo. Cada link removido representava apenas uma instância específica, não a obra como um todo. O mesmo livro, filme ou álbum musical continuava disponível em dezenas — ou centenas — de novos endereços.
A lógica de “remoção por denúncia” consolidou um ciclo sem fim: produtores denunciam, o Google remove, novos links surgem, e o processo recomeça. Não há prevenção, apenas contenção temporária.
2014: esconder não é resolver
Em 2014, o Google anuncia que começaria a “esconder” sites piratas, empurrando-os para posições inferiores na Busca. A medida foi noticiada pelo G1 e por veículos regionais como o Correio do Estado, sempre com a mesma promessa: dificultar o acesso do usuário médio ao conteúdo ilegal.
O problema é que o próprio funcionamento da Busca permite contornar essa barreira com extrema facilidade. Termos como “PDF”, “download”, “assistir online” ou mesmo o nome da obra acompanhado de pequenas variações continuam a expor resultados piratas com rapidez.
Na prática, o que se observou foi uma reorganização da pirataria, não sua eliminação. Os sites mais antigos caíram, outros tomaram seu lugar.
2017: a ilusão da solução definitiva
Em 2017, surgem reportagens sugerindo que o Google teria encontrado uma forma mais eficaz de combater a pirataria. Manchetes falavam em “extermínio” do problema, criando uma expectativa de ruptura tecnológica.
Essa expectativa, contudo, não se confirmou. No mesmo ano, estúdios de Hollywood pressionam publicamente o Google para remover filmes piratas hospedados no Google Drive e até listados no Google Maps — produtos controlados diretamente pela empresa.
O episódio expôs um ponto sensível: a pirataria não estava apenas sendo indexada, mas também hospedada ou distribuída dentro do próprio ecossistema do Google.
Em alguns casos, o próprio Google armazena a pirataria
As pesquisas envolvendo “drive” existem, dentre outros motivos, para encontrar material pirata. Como é de se esperar, os arquivos presentes nos servidores do Google são piratas.

2018: transparência institucional, pouca mudança prática
Em 2018, o Google reforça sua estratégia de comunicação institucional, publicando relatórios detalhados sobre investimentos, parcerias e ferramentas de combate à pirataria. O TecMundo destaca a iniciativa como um esforço de transparência.
Apesar do volume de dados, o impacto concreto continuou limitado. Para o usuário final, pouco mudou. Para produtores de conteúdo, a sensação era de desgaste contínuo: denunciar links se tornara parte do trabalho rotineiro, sem perspectiva de solução definitiva.
2020: o discurso do “está diminuindo”
Em 2020, plataformas ligadas à defesa dos direitos autorais passam a afirmar que sites piratas estariam “perdendo espaço” no Google. A análise, contudo, baseava-se em recortes específicos da Busca tradicional.
Na prática, enquanto perdiam espaço em algumas palavras-chave genéricas, esses sites ganhavam relevância em novas superfícies: buscas long tail, Discover, snippets destacados e até painéis informativos.
A pirataria deixava de disputar apenas ranking e passava a disputar atenção algorítmica.
2022: seis bilhões de links removidos, mas… o problema persiste
Em 2022, o Google divulga um dado que resume toda a contradição de sua política antipirataria: 6 bilhões de links removidos em 10 anos. O número, divulgado pelo Meio Bit, impressiona à primeira vista.
Mas, sob análise crítica, ele revela o oposto do que pretende demonstrar. Se bilhões de links precisaram ser removidos, é porque o sistema falhou em impedir que eles surgissem.
A pirataria não apenas sobreviveu a duas décadas de promessas, como se profissionalizou, automatizou e se integrou às próprias lógicas da Busca moderna.
Não pode ou não quer?
Nesse cenário, a pergunta mais comum é se o Google não consegue resolver o problema da pirataria ou se ele não tem interesse em resolver o problema.
A empresa já recebeu (e ainda recebe!) diversas multas e ações judiciais relacionadas a materiais piratas. Isso, por si só, é um incentivo à resolução do problema. Entretanto, como já demonstramos em outros assuntos, como a invasão de sistemas educacionais e governamentais, o Google tem sérias dificuldades em analisar as páginas e arquivos com si só.
Ou seja, pode ser que a empresa ainda não tenha descoberto maneiras de resolver o problema. Com isso, precisamos pensar que os motores de busca não são tão seguros e inteligentes como imaginávamos. Talvez, regulações e obrigações obriguem a empresa a encontrar caminhos de maneira mais rápida.
A posição oficial vs. a realidade observada
No portal institucional Fighting Piracy with Google, a empresa reafirma seu compromisso com a legalidade, destaca ferramentas de denúncia e parcerias com a indústria cultural.
O contraste com a realidade é evidente. Hoje, usuários continuam encontrando livros, filmes e séries piratas com poucos cliques. Em alguns casos, o acesso ocorre diretamente em painéis informativos ou resultados enriquecidos — espaços de alta visibilidade, legitimados pelo próprio Google.
Conclusão
A linha do tempo revela um padrão consistente: o Google promete, ajusta, comunica — e a pirataria permanece. O modelo adotado ao longo dos anos não é preventivo, mas reativo. Ele protege a empresa juridicamente, mas não resolve o problema social, econômico e cultural da pirataria digital.
Depois de quase vinte anos, a questão que permanece não é se o Google pode combater a pirataria, mas se está disposto a fazê-lo de forma estrutural, mesmo que isso implique rever princípios fundamentais do seu próprio modelo de negócio.
Publisher do "Não é Agência!" e Especialista de SEO, Willian Porto tem mais de 21 anos de experiência em projetos de aquisição orgânica. Especializado em Portais de Notícias, também participou de projetos em e-commerces, como Americanas, Shoptime, Bosch e Trocafone.
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